Presos de altíssima periculosidade sob custódia terceirizada: o risco estrutural da cogestão prisional

O modelo transfere funções críticas de segurança, disciplina, e movimentação interna do efetivo carcerário, a agentes terceirizados, criando uma zona de risco na custódia de presos de altíssima periculosidade — incluindo líderes de facções criminosas com elevado poder financeiro.
MATÉRIA NACIONAL | DOSSIÊ FENASPPEM
Na 12ª Reunião Ordinária do Conselho Nacional de Segurança Pública e Defesa Social (CNSP), realizada no Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP), em Brasília, nos dias 23 e 24 de setembro de 2025, o presidente da Federação Sindical Nacional de Servidores Penitenciários e Policiais Penais (Fenasppen), Fernando Anunciação, também membro do CNSP, conclamou o colegiado a se posicionar sobre a terceirização e privatização do sistema penitenciário, incluindo as parcerias público-privadas (PPPs), prática que persiste há duas décadas, com resultados deletérios. 
Anunciação reputou a medida incompatível com a natureza típica de Estado das atividades de custódia e execução penal. Como exemplo, mencionou decisão judicial proferida em 7 de agosto de 2025, que determinou a transferência de 91 presos identificados como integrantes da facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC), os quais foram removidos da Penitenciária de Segurança Máxima (PENSM), em Maceió, para o Presídio do Agreste, em Girau do Ponciano/AL. Ambas administradas pela empresa Privada REVIVER.
 
Conforme divulgado na imprensa, para o juiz Alexandre Machado de Oliveira, o Presídio do Agreste é a estrutura prisional que oferece melhores condições de isolamento dessas facções. “Há uma política de segurança adotada pelo Estado ao longo dos anos de concentrar esses faccionados no Presídio do Agreste”, afirmou. O curioso é que, anteriormente, em 7 de fevereiro de 2025, uma movimentação ocorreu em sentido inverso: a transferência de 21 presos, apontados como líderes de facção criminosa e investigados por diversos crimes, como homicídios e tráfico de drogas, foram transferidos do Presídio do Agreste, em Girau do Ponciano, para a Penitenciária de Segurança Máxima de Maceió, onde foram submetidos ao Regime Disciplinar Diferenciado (RDD), sob o argumento de impedir que continuassem a comandar atividades criminosas de dentro do sistema prisional, boa parte desses presos com penas que, somadas, ultrapassam 100 anos de reclusão. 
 
Como destacado, ambas as unidades prisionais são administradas sob regime de cogestão entre o Governo do Estado de Alagoas e a empresa privada Reviver. Anunciação alertou que tal cenário, ao delegar a custódia e a movimentação interna de presos, especialmente com esse perfil, a funcionários terceirizados, fragiliza a presença do Estado e contraria a diretriz de enfrentamento ao crime organizado por meio do fortalecimento da Polícia Penal. Ele advertiu, também, sobre o risco de “mercantilização” da pena e de incentivos perversos ao encarceramento quando a lógica privada se sobrepõe à função pública, além de potencial usurpação de atribuições policiais por particulares.
 
Anunciação assinalou, por fim, o risco do Projeto de Lei nº 2.496/2025, em tramitação no Senado, que, se aprovado, pode acarretar danos irreversíveis, tais como o esvaziamento da Polícia Penal. Ao permitir que monitores privados façam a movimentação interna e o monitoramento eletrônico dos presos, o Estado retira as atribuições principais dos policiais penais, reduzindo a categoria a meros “fiscalizadores de contrato”.
O Presídio de Segurança Máxima da Capital Maceió/AL – PSMM, funciona em regime de cogestão entre o Estado de Alagoas (através da SERIS – Secretaria de Estado de Ressocialização e Inclusão Social) e a empresa REVIVER Administração Prisional Privada. 
De acordo com informação divulgada na página oficial da SERIS, trata-se da Unidade concentradora que exerce a função de porta de entrada do Complexo Penitenciário de Maceió. Foi construído para abrigar 192 presos, possui 2 módulos com 12 celas, e cada cela possui capacidade para 8 custodiados.

 



PRESÍDIO DO AGRESTE

O Presídio do Agreste, localizado no município de Girau do Ponciano, foi inaugurado no dia 19 de novembro de 2013. A unidade foi construída para reduzir a superlotação no sistema prisional alagoano e funciona por meio de um modelo de cogestão.
Em 22/04/2023, a Seris foi acusada de manter usurpação de funções no Presídio do Agreste. O TAC foi assinado em julho de 2022, com o objetivo de adequar o contrato firmado com a empresa privada Reviver Administração Prisional Privada Eirelli, para que fossem respeitadas as atividades pertinentes ao cargo de policial penal. No entanto, segundo o sindicato, o documento nunca foi respeitado.
Apesar do rótulo de Segurança Máxima, o Presídio do Agreste tem histórico de fuga. Em 2016, sete presos fugiram da unidade. Parte deles foi recapturada posteriormente em operação policial. A ocorrência teve ampla repercussão na imprensa alagoana.

Fotos: Divulgação

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Elisete Henriques

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