Eles afirmam combater a privatização e proteger as atribuições constitucionais da Polícia Penal. Ao mesmo tempo, mantiveram, e ainda mantêm, vínculos com uma empresa habilitada no fornecimento de mão de obra temporária, vigilância privada e no monitoramento eletrônico: setores explorados pelo mercado de cogestão prisional e de terceirização de atividades que avançam sobre as atribuições dos policiais penais. Tudo isso enquanto participam de articulações políticas em nome da categoria.
No centro dessa relação estão Wesley Barreto Bastos, policial penal afastado do serviço por determinação judicial em 2017, após condenação em segunda instância pelos crimes de lesão corporal e coação no curso do processo, seguida de prisão, e que desde 2024 apresenta-se como consultor parlamentar de uma Associação Nacional. E, Paulo Cesar Buzzetti dos Santos, policial penal do estado do Espírito Santo, aposentado, que se apresenta como representante sindical e é sócio administrador da empresa Inova Consultoria Empresarial e Administração Ltda, que tem sede em Brasília, centro das principais articulações políticas e legislativas nacionais, onde estão o Congresso Nacional, ministérios e órgãos responsáveis pelas políticas penitenciária e de segurança pública.
Tal proximidade, revelada por informações cadastrais e institucionais, exige explicações. A questão não está no direito de exercer atividade empresarial, mas na convivência entre interesses econômicos potencialmente ligados à segurança privada, à terceirização e posições de influência em entidades que afirmam defender a exclusividade, a valorização e o fortalecimento da Polícia Penal.
Em publicações divulgadas em seu próprio site, a Associação Nacional registrou a participação conjunta de Wesley Bastos e Paulo Cesar Buzzetti em reuniões como a realizada com o presidente da Central dos Sindicatos Brasileiros (CSB), e o encontro com a presidente do Instituto Latino-Americano de Educação para a Segurança (IALES).
Nas duas ocasiões, Wesley Bastos representou a Associação Nacional como consultor parlamentar, enquanto Paulo Cesar Buzzetti foi apresentado como representante sindical. Não eram encontros sobre assuntos secundários. Estavam em pauta o fortalecimento da representação política e sindical, além da segurança jurídica das atribuições da Polícia Penal.
Wesley deixou a Inova. Buzzetti permanece no comando.
Registros cadastrais consultados e publicados em 2024 apresentavam Wesley Barreto Bastos como sócio da Inova. Wesley não consta mais no quadro societário atual. Sua participação histórica, entretanto, permanece relevante: o atual sócio administrador da Inova é justamente Paulo Cesar Buzzetti, com quem Wesley continua participando de reuniões políticas relacionadas “à defesa das atribuições da Polícia Penal”.
A empresa também já teve entre seus integrantes Gilson Pimentel Barreto, policial penal aposentado de São Paulo, presidente do SINDCOP e diretor financeiro da mesma Associação Nacional citada. Assim como Wesley, Gilson não aparece mais entre os sócios atualmente registrados. Isoladamente, essas proximidades não comprovam qualquer irregularidade. Mas também não permite tratar o conjunto como mera coincidência.
A existência dos CNAEs listados não prova que a Inova tenha executado contratos de cogestão penitenciária, monitoramento eletrônico de pessoas submetidas à Justiça ou terceirização de atribuições policiais penais. Mas revela uma sobreposição objetiva de atividades semelhantes às oferecidas por empresas contratadas em diferentes estados para fornecer trabalhadores sob contrato temporário, vigilância, monitoramento, apoio operacional e serviços relacionados à cogestão de unidades prisionais.
Tal fato é suficiente para produzir perguntas que não podem ser ignoradas, principalmente quando pessoas ligadas à empresa participam de articulações sob a alegação de proteger as atribuições da Polícia Penal.